O adultério continua a ser adultério em que condições? Qual a diferença entre o divórcio e o repúdio? A separação tem o mesmo peso que o divórcio e o repúdio? Quando o cônjuge está livre? Em estando livre, ele pode se casar novamente?
É fundamental conhecermos as palavras gregas dos originais do Novo Testamento para estas perguntas.
“Repudiar” — ἀπολύω (apolyō), isto é, "mandar embora".
“Declaração de divórcio” — βιβλίον ἀποστασίου (biblion apostasiou).
"Apartar-se" — χωρίζω (chōrizō), isto é, "separar-se".
"Adultério" — μοιχεία (mocheia), isto é, ter relação ilícita com a mulher do outro.
"Adultério" — πορνείας (pornéia), isto é, imoralidade sexual.
Quais destas palavras Jesus usa?
31«Também foi dito: Todo o homem que se divorciar (ἀπολύσῃ) da sua mulher deve passar-lhe uma declaração (ἀποστάσιον). 32Mas eu digo-vos: Todo o homem que se divorciar (ἀπολύων) da sua mulher, exceto no caso de adultério (πορνείας), é culpado de a expor ao adultério (μοιχευθῆναι). E o homem que casar com ela também comete adultério (μοιχᾶται).» (Mt. 5)
“É permitido ao homem repudiar (ἀπολύω) a sua mulher por qualquer motivo?” (Mt 19:3)
Aqui aparece novamente ἀπολύω — repudiar.
Jesus responde ao presente com o passado, Ele responde o problema com um princípio: "Não foi assim desde o princípio." (Mt. 19:8)
4«Nunca leram nas Escrituras que, no princípio, Deus os criou homem e mulher? 5Por essa razão está escrito que o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher, e os dois se tornarão como uma só pessoa. 6Assim já não são dois, mas um só. Portanto, não queira o homem separar aquilo que Deus uniu.» (Mt. 19:4-6)
Em Mateus 5:31, Jesus cita Deuteronômio 24:1, cujo documento, é a declaração de divórcio, que tem a ver com o repúdio, ou melhor, seria a formalização do repúdio, cujo ato tem como ponto de partida quem manda embora.
Paulo em 1 Coríntios 7:15 alarga a discussão porque não parte da imoralidade sexual ou adultério. A questão de Paulo é deixar ir embora quem deseja ir.
E, curiosamente, ele nem sequer cogita que esta atitude venha de um irmão. O que se espera dos irmãos é que sigam casados, entretanto, se algum incrédulo quiser ir embora o irmão ou a irmã abandonados estariam livres do jugo do casamento.
O tal "jugo" em grego vem de δουλόω (douloō), “escravizar”, “submeter à escravidão”, ou seja, há uma liberdade sem o peso do casamento anterior. Agora, o jugo é de Jesus, de paz e de liberdade.
Paulo não usa aqui ἀπολύω (apolyō) como está em Mateus capítulos 5 e 19 (como vimos), que é repudir. Ele inverte a discussão e tira o foco de quem abandona para quem é abandonado.
Entretanto, surge um possível problema mais ao final do capítulo:
"Uma mulher casada está ligada a seu marido enquanto ele viver. Se ele morrer, ela fica livre e pode casar com quem quiser." (1 Co. 7)
Este é um aparente problema se não discernirmos o termo "marido" (ἀνήρ - anḗr). O que significa "marido" neste contexto?
"Marido" é aquele que não se divorciou. O jugo do casamento continua lá mesmo que haja repúdio ou um apartar-se (separação) sem a formalização da carta de divórcio.
Sendo assim, a conclusão mais equilibrada do que a Bíblia ensina sobre o divórcio e o re-re-casamento é a seguinte:
1. O divórcio não é plano de Deus desde o princípio da Criação;
2. O divórcio é justificável num contexto de imoralidade ou de abandono e derivações. Digo "derivações" porque o abuso e a violência tomam dimensões de abandono com requintes de crueldade;
3. Quem não se divorciou (dentro dos parâmetros acima) não está apto para um novo relacionamento;
4. Repudiar-se por qualquer razão não é o ideal e se acontecer terá de ficar sozinho até o cônjuge falecer; e,
5. Qualquer re-casamento precisa ser realizado entre irmãos em Cristo.
Enfim, mesmo diante de tantos casos, não queremos tratar esta questão de maneira leviana na igreja. Que Jesus nos ajude!
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