Sinta-se Em Casa

Entre. Puxe a cadeira. Estique as pernas. Tome um café, e vamos dialogar com a alma.



sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O Perdão na Perspectiva da Restauração

Perdoar e ser perdoado, ambos exigem um processo de restauração. Por quê? Porque as marcas e as consequências são sofridas tanto por quem ofende como por aquele que precisa liberar o perdão. 

A restauração não é um ato, ela acontece num processo.

Ao mesmo tempo em que restauração é um processo solitário porque requer uma atitude e persistência muito pessoais, ela requer a companhia de um abraço amigo. Aliás, não só de um abraço amigo, mas de "passos amigo". Aquela caminhada que não se pode fazer sozinho.

A restauração é um processo lento e doloroso porque o pecado também acontece num processo. Desde a Queda vemos isto. Olhar, desejar e comer do fruto repete-se. Não foi assim no adultério do Rei da Davi? 

Jesus sabe ser este um processo de desconstrução da santidade e da comunhão, pois nos alertou: "Vigiai e orai para que não entreis em tentação." (Mt. 26.41)

É mais legítimo reconhecermos que ninguém cai em tentação abruptamente, antes entra-se gradativamente. 

É por isso que a retomada da comunhão e de qualquer relacionamento, que recomeça com Deus, passa por um processo de autoanálise e confissão. 

"Lembras-te de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras." (Ap. 2.5)

Reconhecer-se, assumir e confessar não é "pera doce", por outro lado, apenas Deus é o único que está num nível acima porque não tem Ele pecado. Ainda assim, humilhou-se em Jesus para levar os nossos pecados.

A suposta vítima também um dia precisou ser perdoada e encontra-se suscetível a pecar igualmente. Sem contar que o processo de queda, normalmente, conta com a desastrosa colaboração de quem é a vítima.

Quem tem mais pecado? Quem pecou ou quem cooperou para o outro pecar? Ambos estão sujeitos a restauração do Deus de amor e misericórdia.

Quem pecou e a vítima do pecado, ambos precisam de um "anjo", um enviado, que tenha "olhos de ver" do lado de fora.

Quem cuida, do lado de fora, não apenas enxerga melhor lá dentro, mas vê melhor os caminhos cá pra fora.

Você precisa ser restaurado porque pecou? Você precisa ser restaurado porque foi ofendido e traído? Ambos precisam daquela companhia amiga.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Perdão na Perspectiva do Cuidado

Perdoar requer muito esforço pessoal e muita graça divina, ao mesmo tempo. Uma combinação que algumas vezes passa pelos braços generosos do cuidado e também se embrenha num processo de restauração que requer ajuda. 

O cuidado é um instrumento da graça de Deus a qual encontra o esforço humano, aquela disposição em lutar, enfrentar, não se permitir ser o mesmo, ainda que a força seja pouca.

Neste caminho há algumas questões básicas: 

1. O perdão, naturalmente, existe porque há falhas, pecados, equívocos e injustiças. Entretanto, ele não brota livre e facilmente quanto o pecado. Custa muito! 

2. O perdão precisa ser construído num processo de cura que é derramado, paulatinamente, quase que gota a gota.

3. Precisa haver uma decisão em partilhar a mesma graça de que se desfruta. Vou perdoar porque primeiro sou perdoado em Cristo. Uma condição que nivela a todos nós.

Neste processo entra a boa mão do cuidado, ou melhor, os braços que abraçam e acolhem, os ouvidos que - atentamente - se inclinam a beber cada palavra, cada partilha. E por trás um coração pronto a amar.

É neste contexto de graça e amor, onde acontecem as lutas, os esforços e a dedicação, tanto de quem está com o coração em pedaços porque foi traído, magoado, entristecido, como também daqueles que, com um coração pronto, sofrem com os que sofrem. 

Não é assim o cuidado? Nunca daquele que está acima, intocável, mas sim, por parte daquele que mergulha no mesmo pântano, com um pé de fora, numa rocha, onde se apoia e soergue aquele que nele está atolado, pois afinal, um dia já lá esteve.

Você precisa perdoar? Busque ajuda e prove da graça que abraça, cuida e liberta.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Nos Bastidores da Hospitalidade

Comer bem e dar boas risadas! Esta era a minha vivência ao redor da mesa. Foi assim em família e também no contexto de Comunidade Cristã brasileira.

A hospitalidade era oferecer o melhor, ainda que o melhor não fosse o que tínhamos. Eu preciso confessar: não havia simplicidade no sentido de oferecer só o que podíamos oferecer. O frugal não cabia no prato da Hospitalidade.

Eu vim de uma realidade onde comer era o mais importante quando o assunto era comer. Faz sentido? E um detalhe a mais: vivia eu na cultura Paulista onde, normalmente, era deselegante passar horas nas casas das pessoas, mesmo dos amigos (com raríssimas exceções). Havia um certo limite. Fazia parte do bom senso a certa altura pedir licença, e ouvir por educação: "não vai não, está cedo!" (Ainda que fosse tarde!)

Entretanto, tenho descoberto uma coisa linda na cultura portuguesa: o valor do convívio. Os portugueses passam horas ao redor da Mesa. Diga-se de passagem que "conviver" no Brasil aplica-se ao cotidiano, e cá em Portugal é "convívio", aquele encontro mais alargado ao redor da mesa.

O que acontece ao redor da mesa? Quais as implicações da Hospitalidade?

Edith Schaeffer em seu livro "L'Abri" partilha os bastidores da Hospitalidade desde o trabalho da decoração até o enfrentamento de situações bastante delicadas, e sobretudo um mergulhar profundo de alma e de tempo em aconselhamento, reflexão e oração.

É isto que temos vivido na Associação Evangélica Cascatas. A Hospitalidade traz desdobramentos mais profundos e a frugalidade encontra o seu espaço. Aliás, a simplicidade do prato único especial é algo da cultura portuguesa. A cultura do Banquete e do "self-service" com muitas opções de prato torna a Hospitalidade mais complexa.

E o que acontece num Centro onde as pessoas vêm para ficar? Fazer uma refeição e passar o dia é o menos comum. Normalmente, as pessoas ficam dias e até meses.

Então, floresce a oportunidade de Confissões, Sessões de Aconselhamento, Discipulado, Estudos Bíblicos, Reflexão, Trabalho manual e tempo de oração.

O que vivi em 19 anos de pastorado foram situações que demandavam atenção especial e depois cada um ia para casa, e então marcava-se alguns encontros mais. Num Centro de Hospitalidade há um aprofundamento quantitativo concentrado tanto no ouvir quanto nos temas estudados. Os encontros não são semanais, eles acontecem diariamente, e algumas vezes por algumas vezes no mesmo dia.

Enfim, as fotos ao redor da Mesa não revelam os bastidores da Hospitalidade. As fotos não contam as confissões e as curas, nem as melhores piadas e as lágrimas mais dolorosas, nem mesmo as privações e os milagres da multiplicação, nem ainda a abnegação aguda e as dádivas que algumas vezes são traduzidas em presentes e mimos.

A Mesa, a horta, as criações, a cozinha, o jardim de oração, a lareira, os filmes, os jogos e as brincadeiras, e até os passeios e as caminhadas, são instrumentos que nos tornam mais vulneráveis, e quando abrimos as Escrituras estamos mais receptivos.

Depois de mergulhar neste Ministério vejo que se não houvesse boa base familiar, boa teologia, conhecimento bíblico, vida com Deus e muita disposição e disponibilidade em servir como Cristo serviu aos discípulos, e ainda abertura em receber bem todo tipo de gente, este Centro não passaria de uma Guest House. 

Uma Guest House se safa com uma camareira, uma cozinheira e um manager, no entanto, um Centro de Hospitalidade - para além destes - ora requer um pastor, ora um professor, ora um psicólogo, ora um irmão, um pai ou uma mãe, ou um servo, ou simplesmente um igual, um ser humano, gente que precisa Deus, gente que precisa de gente.

Instagram: @vacilius.lima 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Round 6 - Qual o seu número?

Aconselho? Não. Por quê? Porque não gosto de ver sangue e sinto-me desconfortável com algumas cenas, especialmente de suicídio. Por outro lado, se tivesse que definir em alguns adjetivos diria: eletrizante, inteligente, sagaz, inquietante e metafórico. Vi a cada jogo a realidade da vida estampada ali.

Vamos a algumas considerações bem pessoais: 

1. Por que tanto sucesso? É porque resgatou as memórias de infância com os jogos e as brincadeiras, as quais revelam os mesmos sentimentos que estavam em nós quando criança, no entanto, agora de maneira potencializada e desenvolvida no mal. Também ficávamos com raiva e queríamos vingança, mas logo passava. Já na série as mesmas brincadeiras e jogos estão lá, e com os mesmos sentimentos de antes. O que mudou é que a diversão assume a confissão da ganância, do poder e da necessidade.

2. Um ambiente lúdico não combina com atrocidades. Entretanto, não é isto que acontece em algumas escolas e lares? Lugares que deviam ser de proteção e diversão, acabam por se tornarem macabros. 

3. Em meio ao caos é possível encontrar gestos de graça e generosidade o que demonstra uma "fagulha" daquilo que foi perdido por causa do pecado. Foi perdido totalmente na perspectiva de que o homem em si mesmo não soluciona o problema, e não foi perdido totalmente porque a graça deixa algo lá, que nos remete ao original da nossa criação.

4. Quando a vida chega no nível do "não tenho nada a perder", aceita-se qualquer proposta, ainda que a própria morte venha no pacote. Aliás, há propostas nas quais a morte é o que há de mais certo. 

5. Quando se está no fundo do poço faz-se necessário enrijecer-se e conviver com o caos. Assumi-lo como parte da vida é uma maneira de reagir.

6. Vidas valem dinheiro. Não é o que fazemos quando sufocamos o que traz vida em nome daquilo que é transitório? Temos muitas dessas trocas no dia-a-dia. Qual é a sua?

7. No caos, o caos aumenta. E a desesperança assume dimensões "inescapáveis" em si mesma.

8. O embrulho da morte, um caixão envolto em fitas, revela que ela é um presente quando a vida já foi perdida - na perspectiva dos manipuladores e dos impiedosos.

9. Quem consegue manter a calma e raciocinar, vai mais longe. O desespero na hora do desespero diminui a ponta da esperança.

10. Triste. Muito triste é quando a vida precisa ser decidida entre duas vidas. Acontece todos os dias.

Quando olhamos o sistema de saúde não seria um jogo que envolve morte? Não foi exatamente isto que assistimos na Pandemia? Não é isto o que acontece todos os dias quando Hospitais limitados de capacidade atendem alguns em detrimento de outros? Aliás, os milhares que estão na fila de espera por um órgão, ou simplesmente para uma consulta ou tratamento, não estão dentro de um jogo de vida ou morte? 

11. Aquela "fagulha" de graça e misericórdia mesmo no caos, em situação de risco é capaz de dar lugar a atrocidades desumanas, quando a ganância toma o seu lugar.

12. O dinheiro não resolve os problemas mais essenciais, antes porém, a falta dele potencializa-os. 

13. Os poderosos em sua ganância não veem o seu próximo como gente, mas simplesmente como um número que pode ser eliminado a qualquer momento, enquanto eles assistem e se divertem. 

14. Um ponto à parte seria um positivo. Tem coisa boa? Sim, sim. Tem, tem. Esta série tem provocado um retorno às brincadeiras antigas. Meu filho Murilo não assistiu, mas brinca de Greenlight Redlight ou Batatinha Frita 1, 2, 3.  E nós entramos na brincadeira. É bem divertido. 

Vamos parar de demonizar o que é bom porque alguém usou mal. Brincar faz parte da essência do ser humano. Deus nos criou assim, com esta veia lúdica.

15. Outro ponto bastante positivo é que existe uma conexão fortíssima com a família. A família faz parte da espinha dorsal. Inúmeras vezes, os jogadores estão a buscar suas memórias, e aliás, os jogos acontecem porque os jogadores querem resolver, basicamente, problemas familiares. 

Ainda que a família esteja mal e destruída a vida sempre estará ligada a suas origens.

16. Mais um ponto positivo? Quanta sabedoria naquele velhinho simpático. Sabedoria que se demonstra, inclusive quando se abre a aprender, ou simplesmente a responder a partir do silêncio. Sabedoria que lhe foi acrescentada através dos anos, das vivências e da reflexão.  Fala sério, como o 001 (Oh Il-nam) é uma das melhores personagens.

Ah, não podia deixar de mencionar que há muitas cenas que a mentalidade Ocidental não consegue entender ou aceitar. Uma série feita na Coréia do Sul não tem nada a ver com Hollywood em termos de cosmovisão, e é por isso que nos desaponta algumas vezes. 

E termino com um agradecimento ao produtor e diretor Hwang Dong Hyuk, e também ao Apóstolo Paulo que disse: "Examinai tudo. Retende o que é bom." (1 Ts. 5.21)

Instagram: @vacilius.lima

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Os Jardineiros Perdidos

Deus criou todas as coisas e viu que tudo era bom. Ao criar o homem, fê-lo para que fosse o jardineiro de sua criação. E o que somos agora?

Não temos dúvida de que a nossa missão hoje é a Grande Comissão – e faz parte dela pregar todos os desígnios de Deus.

Faz parte da mensagem do Evangelho que todo discípulo seja mordomo e, por isso, cuidar do Jardim.

A Grande Comissão existe porque a nossa primeira missão foi perdida, a de cuidar do jardim. O resgate da comunhão com o Criador implica o cuidado da Criação.

Qual é a problemática? É que pensamos resgatar apenas almas, como se fossem apenas exploradoras deste mundo a favor de um Reino Futuro.

De um lado, estão aqueles cujo mundo criado, caído, promove algum bem ou prazer, mas não passam de “vãos terrestres esplendores”, como eu cantava quando criança. E nesta direção também cantava: “No espaço sideral há um lar sem igual, para quem serve a Deus com alegria.” O que é isto? A criação não passa de um “carma” que precisamos superar?

Por outro lado, há uma tendência de exploradores da Criação a favor da Igreja e da obra missionária. A ordem é ganhar dinheiro, de alguma ou qualquer forma, e investir naquilo que é espiritual e eterno. As coisas criadas jamais fariam parte das coisas eternas, então só esperam o dia que serão queimadas pelo fogo, pensam alguns.

Erroneamente, interpretam 2 Pedro 3:12 como a mensagem final: tudo será queimado pelo fogo. Nem vale a pena agora entrar no mérito de que o “queimado” é “purificado”. O que importa é não parar no texto. Se seguimos, chegamos ao verso 14: “Por isso, amados, enquanto aguardais estes eventos, esforçai-vos para que sejais encontrados por Ele em plena paz, sem mácula e livres de culpas diante dele.”

Uma mácula e uma culpa que os discípulos não deveriam ter é afrontar a Deus ao destruir sua Criação ou simplesmente não cuidar dela.

Imagina um animal em extinção? Quanto do tempo e do amor de Deus foi dispensado no ato da Criação? Sem contar que Deus estabeleceu interdependência em sua Criação. Quando perdemos uma espécie, prejudicamos outras. Ou seja, é como se disséssemos a Deus: “Não precisaria ter investido tanta criatividade nisto.”

Bem disse Peter Harris, fundador de “A Rocha”, que o nosso chamado é para relacionamento com Deus, com as pessoas e com a Criação, e que a gratidão é uma das diferenças que demonstramos.

Como cultivar a gratidão sem o cuidado prévio? Sou muito grato a Deus pela  existência de movimentos nesta direção. Ouvi numa Palestra de Guilherme de Carvalho pela ABC² – Cristãos na Ciência – que estão trabalhando no Projeto Éden, um movimento que envolve a Aliança das Igrejas Evangélicas e outras frentes, gente responsável e visionária que trabalha para que tenhamos música, reflexão e projetos que enalteçam o Criador e que zelam por sua Criação.

A questão da responsabilidade ambiental precisa fazer parte da agenda daqueles que foram alcançados pela Grande Comissão e que agora podem resgatar a sua missão como jardineiros da Criação.

O que comemos? Quais produtos compramos? O que fazemos com os “restos”? Quanto investimos em projetos com estes?

Lembrei-me de minha filha Jamily ao comprar um cosmético. Ela preferiu o produto que não fazia testes em animais. São atitudes como essas que devem nos impulsionar.

E não podemos nos contentar apenas em fazer reciclagem. Precisamos avançar. Fazer compostagem. Comprar alimentos mais saudáveis e investir em projetos que, para além de missionários, dignificam a missão perdida.

Aliás, a começar dos missionários, deveríamos ser os primeiros a enxergar o campo, não apenas como um campo de batalha, mas também como um campo criado, a ser cultivado e cuidado. Os missionários são pessoas de influência que podem abençoar muito à sua volta.

É mais do que fazer alguma coisa para ganhar almas: é fazer da mordomia parte da missão de Deus.

Um alcançado que assume a sua jardinagem glorifica a Deus como mordomo.

E não para por aí, porque ao ser um bom mordomo, num relacionamento satisfatório com o Criador, não cairemos numa espécie de “panteísmo evangélico” que só fica na contemplação, mas que busca trazer um número maior de jardineiros perdidos.

Vamos missionar para resgatar mais do que almas?

Instagram: vacilius.lima 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

A Criação Adora

Podemos adorar no deserto ou em meio aos "arranha-céus", entretanto, quando estamos mergulhados na Criação há uma conexão diferente. 

Por quê? 

Porque a criação também adora. Sabe quando nos juntamos a pessoas que gostam e fazem as coisas que também gostamos? 

É mais do que nos sentirmos em casa. É abraçar juntos no mesmo propósito. 

O Salmo 148 fala que cada coisa criada louva ao Criador, e esta conexão de que estamos a falar. 

Quando paramos tudo para contemplar um "sunset" com as suas cores alaranjadas, ou simplesmente um flor, o que estamos a fazer? 

Estamos a dar as mãos com aquilo que faz o mesmo que estamos nós a fazer. Que maravilha!

Quando contemplamos os céus, as árvores, os animais, num ato de contemplação não apenas a coisa criada, mas ao Criador, estamos a adorar juntos, no mesmo momento e local. 

É uma congregação reunida num ato de culto. 

Contemple a natureza, cuide dela, promova o seu bem, e ao contemplar não se esqueça de que está diante do Criador e eles também, num ato reconhecimento de Sua majestade.