Sinta-se Em Casa

Entre. Puxe a cadeira. Estique as pernas. Tome um café, e vamos dialogar com a alma.



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

"Pra já" tudo é "mais pequeno"? (Portugal não é Brasil - VI)

O mapa de Portugal cabe dentro de um dos menores Estados brasileiros, Pernambuco. E a população do país inteiro, tem uma população "mais pequena" que a capital paulista. De pronto, falamos sobre o "mais pequena".

Embora o verdadeiro tamanho de Portugal seja bem maior, conforme mapas mais atuais defendem, ele ainda é pequenino - geograficamente. 

"Pra já" Portugal não é menos importante porque é "mais pequeno" - geograficamente. "Mais pequeno" não é só aceitável, mas é tido por certo, em terras lusitanas. "Pequenez" essa que não ofusca a sua grandeza cultural e histórica, as quais são de tamanho incomparáveis. 

O tamanho geográfico de Portugal, pode causar alguma dificuldade na adaptação de um brasileiro?

Se a questão fosse apenas geográfica, e de mapa, penso não haveria grande problema assim. Entretanto, eles estão aí, porque o tamanho, algumas medidas, acabam por influenciar as nossas sensações, impressões e certas conclusões. 

Possíveis problemas e dificuldades com o tamanho de Portugal:

1. Associar tamanho geográfico, e a quantidade da população, a um olhar de desprezo. "Facto" que já presenciei até num português. Colocou-se assim: "Eh, pa. Isto não tem nada a ver com o Brasil. Somos pequeninos. O Brasil tornou-se uma potência." Talvez quisesse ele, retribuir aos elogios que eu já havia feito a Portugal. 

2. Achar que viajar 1 hora em Portugal, equivale a viajar 1 hora no Brasil. Ah, depois de 3 anos cá, as distâncias se multiplicaram. Ainda fazemos deslocações com maior facilidade, mas já estamos a avaliar mais, para saídas que ultrapassam 30 minutos. O preço das portagens (pedágio), e até as paisagens influenciam. 1 hora em auto-estrada, com a repetida paisagem, bucólica, e sem movimento, dá uma sensação de ser mais distante. Ainda assim, aprecio imenso. Prefiro a natureza aos prédios.

3. Não aceitar o tamanho reduzido das oportunidades e até mesmo da "popularidade", ou da influência em si, é um problema. No Brasil qualquer um, e para qualquer coisa, haverá público. Em Portugal, para além de serem mais seletivos, há os números reduzidos, drasticamente. Qualquer brasileiro que trabalha com o público, seja nas artes, na música, na publicação de livros, ou até canais na multimédia (mídia), tende a ficar muito desapontado se não ajustar a sua possibilidade de alcance.

Então, o tamanho do País, tem sua influência, e nossas motivações precisam ser ajustadas e adaptadas a essa realidade.

Mas, não posso deixar de falar das viagens. É muito mais possível fazer viagens "longas", quando são planeadas (planejadas). Conhecer o País, de um extremo ao outro, não é uma tarefa tão difícil assim.

Ama Portugal? Então, desfrute com empatia desse "pequeno gigante". 

Instagram: @vacilius.lima
Foto: Mara Regina e Fernando Pessoa, em frente ao Café "A Brasileira"

O Gosto pelo "Papelim" e por Museus (Portugal não é Brasil - V)

Meu pai, Lidio Faria, queria conhecer Lisboa. Então, ao chegarmos na Bilhetera (Bilheteria), pedi o desconto para idosos, na passagem de Comboio (trem). Então, o atendente olhou para meu pai, e autorizou mediante apresentação de Documento. Natural. 

Havia uma cópia do Passaporte no Telemóvel (Celular). Entreguei-lho. E qual foi a pergunta imediata? "Não tem em papel?" Enfim, não obtivemos o desconto. 

Não foi somente aí. Tivemos experiências parecidas, em outras situações. Até que um dia, no Mercado, pudemos usar as informações virtuais, para obter os descontos, e não o cartão-físico, necessariamente.

Isto comunica o quê? Que há alguma resistência as mudanças. E é natural, pois se trata de uma país de muitos anos. As mudanças num país mais jovem, são mais normais. 

Aliás, faz parte da Marketing no Brasil, explorar o fator "Novidade", enquanto em Portugal, o argumento mais bem aceito, é o da "Tradição". (Obs.: sei que ambas estratégias, são usadas cá e lá. Falo daquilo que é mais natural.)

Aliás, quero associar o tema do "papelim" a realidade dos pontos turísticos, que remetem a História.

Os Museus foram citados no título da reflexão. Mas, caberia mencionar as Muralhas, os Palácios, os Castelos, as Praças, os Mosteiros, as Aldeias, os Monumentos, as Estações, ou cidades inteiras, como Guimarães - onde nasceu Portugal. Enfim, o Turismo em Portugal está, em muito, relacionado com a sua própria História. 

Até as Praias, trazem informações históricas importantes, e naturalmente o Tejo. Aliás, este merecia uma capítulo à parte. Outro capítulo que merecia destaque são os Jardins. 

Toda esta ligação com a História, ligada a Diversão, faz os pés ficarem na Tradição cada vez. Isto deve ser admirado, pois um povo que não valoriza o seu passado, corre o risco de se perder em seu futuro.

Instagram: @vacilius.lima

Foto: Parque Eduardo VII, ao pé da Marques de Pombal

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A Lógica de Raciocínio (Portugal não é Brasil - IV)

A nossa Aldeia - Mouraria, no Chão da Parada - tem uma única rua principal, a qual estava em obras. A rua dessa outra "obra".

Estava a subir, e descia um vizinho. Então, parei e perguntei ao vizinho: "Bom dia, vizinho. Lá em cima, os carros estão a passar?" Ele, prontamente, respondeu-me: "Não. Inclusivamente, vi agora mesmo dois carros, dando marcha atrás." Eu, brasileiramente, não me contive: "Vizinho, está bloqueado?" Ao que me alertou: "Não está bloqueado". Daí, avancei: "Então, dá jeito de passar." Ele contestou-me: "Dá jeito, dá jeito, não dá, pois há um buraco." Descontente eu, com a falta de clareza imediata, agradeci-lhe e voltei, porque não queria ser indelicado ao senhor, mas queria ir lá tentar passar. 

O que aconteceu? 

A lógica dele foi responder apenas o que eu perguntei, e eu queria um apoiante para dizer, de primeira: "A passagem está livre, mas cuidado porque o buraco é grande, e já tem gente a não o passar. Mas, se passar com cuidado, talvez seja possível."

Eles raciocinam de maneira diferente, sim. A crítica e a sátira das piadas sobre os portugueses, se baseiam nessa maneira diferente de raciocinar. Apenas diferente. Nem melhor, nem pior. 

Perceber isso, pode evitar problemas, problemas que tivemos, porque eles não nos esclareceram coisas importantes, e depois, descobrimos que, a razão é que não havíamos perguntado, ou feito a pergunta corretamente. Viu a diferença? 

E quando, a nossa intervenção sai do previsto? E quando alteramos o que seria suposto, desde sempre? Coisas que aconteceram em nosso prédio, como ajudar a carregar os sacos de compra até a porta do vizinho, e depois, ainda descer para completar a ajuda.

Os portugueses não são generosos? Não é essa a questão. Eles têm a sua maneira de serem generosos. O que estou a partilhar, é que custa um tanto alterar a rotina, fazer diferente daquilo que já está previsto.

Temos uma lógica diferente, sim. Os brasileiros querem resolver o suposto problema dos outros, e então, prontamente se oferecem para ser a solução. O que algumas vezes, será bem-visto, outras, será invasivo. 

Muitas vezes, tenho ainda que me segurar, para não dar respostas a perguntas que os portugueses não estão a fazer. 

"Não faz sentido, pah!" É uma expressão muito comum entre eles. E, realmente, não faz sentido apresentar-se como uma solução inovadora, de problemas que supostamente não existem. 

Um dia senti tanto a situação, de um "amigo de café", que ofereci-lhe uma boleia (carona), até o Porto. Aliás, nós iríamos até o Porto, e iria para bem mais longe, só para animá-lo a resolver os problemas que ficaram, com o seu pai. Ele agradeceu-me, mas encerrou as conversas sobre o tema. Ele não queria solução, só queria ser ouvido. 

Vamos a um "facto" mais simples, e bem elucidativo. O humorista Ricardo de Araújo simulou a situação de alguém que deseja ir ao Museu, num dia em que ele está fechado. Imagine que aconteceu no Brasil, e com um português que nos visitava. Então, o português pede ao motorista, ou ao amigo: "Por favor, leva-me até o Museu." O que aconteceria em Portugal, comumente? Eles iriam ao Museu, sem objeção. Por quê? Porque ir ao Museu, não significa necessariamente entrar nele. Podia ser para encontrar-se com alguém. No entanto, entra o brasileiro, motorista ou amigo, em cena. Com uma informação importante: "O museu está fechado." O português contesta: "Não há problema. Leva-me ao Museu." E o brasileiro angustiado, e desejo de ser o "salvador da pátria", diz outra vez: "Eu disse que o Museu está fechado. Você não vai poder entrar."

Precisamos de discernimento. Foi o que aconteceu no trânsito. Havia um auto-carro (ônibus), e uma grande fila de carro, que não podia passar porque havia um carro quebrado, a bloquear a passagem. Então, desci do carro, ofereci ao senhor para empurrarmos o seu carro, e colocá-lo de lado. Então, foi feito, e o trânsito fluiu. Ufa! Esta intervenção resultou.

E as ajudas mais simples? Ajuda à fila do Mercado, para que alguém passe à frente, por exemplo, causa um certo espanto, ou incómodo - porque não é previsto - mas deve fazer bem em qualquer lugar do mundo. 

Enfim, algumas vezes, quisemos ajudar, e fomos bem-vistos, outras vezes, vimos ter causado algum "stress", e então, prevalece o cuidado em respeitar como são, e como pensam, e discernir bem cada oportunidade.

Instagram: @vacilius.lima
Foto: Estamos junto com Pr. Ricardo Magalhães, missionário em Portugal

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A Cultura da Rotunda (Portugal não é Brasil - III)

Ríamos das Rotundas. Achávamos tão desnecessárias. E, até um bocado incómodas. Hoje, porém, temos uma opinião diferente. 

Aliás, estamos tão acostumados, que acabei de perguntar à Jamily, qual é o nome de "rotunda" no Brasil. Ela também não se lembrou. Depois de alguns segundos, veio-nos: "Ora, pois. Rotatória". 

Elas são tão práticas. Normalmente, os motoristas obedecem às regras. O que, aliás, nos irrita um pouco. Como brasileiros, achamos que regras são para serem obedecidas quando há necessidade, e não "cegamente". Deixa estar. Esta é outra questão, por hora, seguimos na temática da "cultura geográfica do trânsito". 

A cultura do trânsito não é mesma, não só por conta das Leis, das Sinalizações, mas há uma questão de "timing" de reação, e ainda bem presente, o mapa geográfico em si. 

O mapa geográfico é o que mais trazia-me confusão. Meu mapa era simples. Estou cá, e desejo ir para o outro lado, então só faço o contorno, e chegarei lá.

"Fazer o contorno" cá em Portugal, só serve às rotundas, porque se saímos dela, a coisa muda drasticamente. Estou cá, e quero chegar do outro, então, entro ali, e acolá, contorno, retorno, encontro uma saída, e normalmente, estou perdido. Inúmeras vezes, irritei-me por aplicar o meu mapa geográfico cá. 

Hoje, sou mais cauteloso, e até passei a admirar, estas entradas e saídas, e até algumas não saídas, de ruas sem saídas, porque há uma questão histórica de "dar a volta" ao inimigo. Ou simplesmente, embrenhar-se - só com a bússola - mar a dentro, com espírito de desbravar e descobrir.

Retornar, e desfazer o caminho? Não. Deixa como está. Até hoje conduzimos por ruas estreitas, por onde os reis trafegavam. Mudar para quê? Preservar a História seria outro tema bem interessante.

Enfim, visitem Portugal, mas não esperem a lógica do mapa geográfico e de trânsito, que temos no Brasil. Boa viagem, e boas rotundas.

Instagram: @vacilius.lima

Foto: Rotunda Marquês de Pombal

Viver numa Aldeia (Portugal não é Brasil - II)

Vivíamos numa região populosa, do Conselho de Lisboa. Hoje vivemos numa na pequena Aldeia, do Chão da Parada, porque cá parou o Rei D. João II, esposo da Rainha Leonor, a qual foi curada pelas águas termais, das Caldas da Rainha, como é chamada hoje. À ela, deve-se o Hospital da Cidade. 

Há alguma diferença? Afinal, estamos há 1 hora de viagem, apenas. Esta é uma curiosidade interessante. Tão perto, tão diferente. Com 30 minutos de viagem, já saímos do grande centro, e encontramos vilarejos, as aldeias. 

Em Lisboa, as pessoas estão a correr, bem ocupadas, e focadas em si mesmas. As pessoas estão ali, não para se relacionar. Elas estão ali para trabalhar, para estudar, ou para "turistar".

E nas Aldeias? As pessoas não estão ocupadas? Não trabalham? Sim, sim. Mas, há muitos aposentados disponíveis, à procura de uma prosa. Também os via em Lisboa, mas a cultura é diferente. Quando os cumprimentava, havia uma resposta um tanto surpresa. E passear o cão e a criança, provocava alguns contactos. Contactos momentâneos, corriqueiros e superficiais. 

Enquanto que numa Aldeia, as pessoas estão mais abertas. Mais prontas para se relacionarem. Não sabemos ainda a profundidade disto, entretanto, há sim maior abertura, nem que seja para uma conversava mais alargada. O que lá acontecia nos cafés, cá na Aldeia acontece quando passamos por alguém, e não só com os vizinhos mais próximos.

Há um espírito de ajuda mútua. Trocamos verduras, e alguns serviços. E até algumas atitudes de carinho, em datas festivas. Fomos surpreendidos no Natal, com uma "tarte" deliciosa. 

 que é mais impressionante, é que estamos há 7 minutos do Centro das Caldas. Lá as pessoas também são mais amistosas. Foi a nossa experiência nos órgãos públicos, e especialmente nas Escolas.

E também estamos há 7 minutos da Praia, Salir do Porto e São Martinho. Estão uma ao lado da outra, mas há uma diferença de público ou motivação. Em Salir as pessoas querem subir as Dunas, em São Martinho, elas querem as Lojas, ou simplesmente uma caminhada mais elegante, no "passeio marítimo" (o "calçadão" do Brasil).

Tão perto geograficamente, e tão longe culturalmente. É assim cá em Portugal. 

Instagram: @vacilius.lima

Foto: Aldeia de Monsanto, a "Aldeia mais portuguesa de Portugal"

domingo, 31 de janeiro de 2021

Eu, Tu e Você (Portugal não é Brasil - I)

Quem sou eu? Um brasileiro em Portugal, que ainda discerne as complexidades entre o "tu" e o "você". 

No Brasil havia algumas "aplicabilidades gramaticais" curiosas. Dizia-se por lá que o "teu" é para referir-se a um objeto que está mais perto, e "seu" para um que está mais longe. Equivalente seria o "isto" e o "isso", ou "este" e "esse". 

Já em Portugal o que está perto não é a coisa em si, mas a pessoa. Mais que a pessoa enquanto objeto. Não se trata de distância geográfica, mas sim, de proximidade relacional, de afetos, de posição, de hierarquia, e até de idade.

Como assim?

As crianças e o jovens tratam-se por "tu", já os mais velhos serão tratados por "você". Também entre os alunos, é normal o "tu", entretanto o professor e a "stora" sempre serão tratados por um "você" implícito. Por exemplo: "a stora podia explicar novamente, se faz favor".

E num nível mais íntimo, o "tu" fica mesmo reservado ao círculo dos mais próximos, família, amigos. Àqueles com quem cabem a informalidade e a intimidade.

Isto fez-me tanta confusão. Aliás, até hoje não é tão claro, quando posso avançar a barreira do "você" para o "tu". Algumas vezes, já tive de recuar. Pensei que já havia amizade o suficiente, e então a conjugação do "suposto amigo", permanecia no "você" para comigo. 

O tempo para um brasileiro fazer um amigo, pode ser já no primeiro encontro. Já o português, é bem mais cauteloso. Demora um bocado para confiar, e abrir sua casa. 

É verdade, que a "zona" onde se vive, pode influenciar neste "timing". Quem o brasileiro é, e como se porta, também pode encurtar este tempo. Embora, sempre seremos os brasileiros. É natural que haja um tom de desconfiança no ar. 

Nisto há uma mistura de precaução, desconfiança, ou simplesmente, da maneira do ser como são. Facto que todos precisamos respeitar, e não sermos invasivos, o que não é nada fácil. Afinal, faz parte de nós, brasileiros, a intromissão, a precipitação, o dar-se tão prontamente.

Por outro lado, concordo com o que se diz por cá: "Os brasileiros "desabraçam" com a mesma facilidade em que abraçam." E o inverso para os portugueses é válido.

Perceber a alma de povo, o seu "inconsciente coletivo", é um mistério a ser desvendado, ao qual não falta "gafes". Lembro-me que tratei uma atendente do mercado por "tu". Hoje sei que foi muito estranho, e soou desrespeitoso.

Outra problemática, é que a conjugação verbal precisa ser coerente. E o uso do imperativo na negativa, com o pronome no lugar certo?  "Não te preocupes (tu)." "Não se preocupe (você)." E o afirmativo? "Pega (tu) para mim." "Pegue (você)." É uma canseira transitar de um para o outro, e ainda mais difícil discernir o momento adequado.

Até as pessoas mais simples de nossa Aldeia, para alguns, uma Província, demonstram ser a Língua Portuguesa o seu berço nativo. "Oiço" alguns velhotes, e rio comigo. "Eles falam muito bem."  Assim, orgulham-se em ser a Língua o seu País.

Enfim, vamos seguir "step by step", com idas e vindas, encontros e desencontros, sabores e dissabores, neste incrível país. 

@vacilius.lima

Foto: Convento de Mafra